Seguros na era da Inteligência: o que o Brasil pode aprender – e ensinar – ao mercado global

Em um cenário macroeconômico em que a inteligência artificial (IA) se consolidou como um dos principais vetores de competitividade, o setor de seguros vive uma transformação estrutural. De um lado, está a abordagem pragmática da maior potência seguradora do mundo, os Estados Unidos. De outro, a agilidade operacional e a capacidade de inovação das insurtechs brasileiras.

Essa dinâmica vem redefinindo o ecossistema global de proteção e alterando a forma como as seguradoras desenvolvem produtos, operam riscos e se relacionam com seus clientes.

O mercado segurador americano permanece como uma referência de escala e sofisticação. O setor movimenta mais de US$ 2,5 trilhões anuais em prêmios, dos quais cerca de US$ 1,34 trilhão estão concentrados no segmento de vida. Trata-se de um ecossistema profundamente integrado à economia dos EUA, cobrindo desde riscos climáticos complexos até o crescente mercado de cyber insurance, impulsionado pela expansão da economia digital.

Ainda assim, apesar de sua robustez patrimonial e tecnológica, o mercado americano tem adotado uma postura relativamente cautelosa em relação à IA generativa.

Nos EUA, a prioridade não tem sido a disrupção direta da experiência do consumidor, mas a integração gradual da inteligência artificial aos processos internos. Antes da exposição dos modelos ao cliente final, as seguradoras concentram esforços em governança, compliance, prevenção de fraudes e ganho de produtividade operacional.

Nesse contexto, os Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) vêm sendo utilizados principalmente para otimizar fluxos internos, mitigar perdas financeiras e ampliar a eficiência das equipes humanas. As insurtechs nativas ainda representam uma parcela relativamente pequena do mercado (cerca de 5% do market share total), atuando sobretudo como aceleradoras de inovação para grandes grupos seguradores.

Essa postura mais conservadora abre espaço para que mercados emergentes avancem justamente na dimensão em que o consumidor percebe valor: a experiência.

Enquanto o mercado norte-americano prioriza eficiência operacional e automação de backoffice, o Brasil vem deslocando a inteligência artificial para a camada de interação direta com o cliente.

Nas seguradoras digitais brasileiras, os agentes virtuais já operam grande parte da jornada do usuário, desde a prospecção e cotação até a assinatura digital de contratos. O modelo combina automação, análise preditiva e atendimento contínuo, reduzindo fricções e ampliando a capacidade de personalização dos serviços.

Essa transformação torna-se ainda mais evidente no pós-venda. A integração entre modelos preditivos e arquiteturas baseadas em LLMs permite avançar na automação da regulação de sinistros, realizando em tempo real a triagem entre liquidação instantânea, recusa fundamentada ou encaminhamento para análise especializada de peritos humanos.

A mudança estrutural mais profunda, contudo, está na granularidade dos dados.

Durante décadas, o modelo tradicional de seguros operou com baixa frequência de interação entre cliente e seguradora. Em média, havia apenas dois pontos de contato mensais. Hoje, com telemetria avançada, monitoramento em tempo real e integração com plataformas da gig economy, as seguradoras passaram a capturar dezenas de milhares de touchpoints por mês.

Esse novo nível de precisão analítica amplia significativamente a capacidade de compreensão do risco e viabiliza produtos antes inviáveis do ponto de vista operacional ou atuarial. Um exemplo é a proteção de renda para profissionais de aplicativos, calibrada em tempo real com base em quilometragem, comportamento e recorrência de uso.

O horizonte da indústria converge agora para o Insurance as a Service (IaaS), modelo impulsionado pela digitalização e pelo avanço da inteligência artificial aplicada. A tendência é que os seguros se tornem progressivamente mais personalizados, contextuais e integrados à rotina do usuário.

Essa lógica reduz assimetrias de informação, diminui custos transacionais e cria condições para mecanismos automatizados de indenização, incluindo pagamentos instantâneos acionados por gatilhos verificáveis em tempo real.

O desafio daqui para frente será combinar a robustez regulatória e atuarial dos mercados maduros com a agilidade operacional desenvolvida pelas insurtechs brasileiras, a exemplo do Pix para os bancos. Quem conseguir unir escala, confiança e experiência digital terá vantagem competitiva relevante nos próximos anos.

Também não se pode desconsiderar a cultura organizacional, especialmente no mercado americano, fortemente ancorada na democratização da inovação. Ao consolidarem ambientes em que a automação é percebida como força complementar – e não substitutiva – da capacidade produtiva humana, as organizações líderes conseguem reduzir resistências à adoção tecnológica e ampliar o engajamento interno nos processos de transformação digital.

Em última análise, a tecnologia vem reposicionando o próprio papel do seguro. Ao superar o arquétipo histórico do “mal necessário” ou da burocracia reativa, o setor retoma sua essência econômica original: atuar como mecanismo de mitigação de incertezas e proteção do bem-estar social, operando de forma integrada, fluida e praticamente invisível quando a sociedade mais necessita, construindo uma sociedade mais resiliente e inclusiva.

Por Rodrigo Ventura, CEO da 88i Seguradora Digital