O que esperar para Inteligência Artificial em 2026: IAs verticais e amadurecimento regulatório

Depois de um 2025 marcado pela consolidação da IA vertical em segmentos regulamentados, 2026 desponta como o ano em que modelos especializados deixam de ser experimentos promissores para se tornarem infraestrutura essencial de operação. Em um cenário que demanda maturidade regulatória, com exigências de transparência, rastreabilidade e mitigação de risco, e de investimentos estratégicos em data centers no Brasil, a corrida pela inteligência artificial entra numa fase de seleção natural. Nesta entrevista, Daniel Bichuetti, co-CEO e CTO da Forlex, analisa o avanço das IAs especializadas em setores altamente regulados, o impacto do EU AI Act (Regulamento de Inteligência Artificial da União Europeia) no mercado, e como serão os desdobramentos dessas e outras tendências para o desenvolvimento de LLMs (Large Language Models ou Grandes Modelos de Linguagem, em tradução livre).

2025 marcou um avanço da IA vertical aplicada a setores críticos. Em 2026, qual você acredita que será o papel das IAs especializadas em ambientes regulados como Justiça, saúde e finanças?
Em 2026, a IA deixa de ser uma novidade generalista para se tornar a espinha dorsal operacional de setores críticos. Não estamos mais falando de chatbots genéricos, mas de modelos treinados para resolver dores latentes e problemas estruturais que IAs horizontais não conseguem abordar com a precisão necessária. Em ambientes regulados como Justiça e Saúde, a margem para erro é zero. Por isso, a tendência é a consolidação de IAs verticais profundas, que entendem o contexto técnico e a legislação local. A IA em 2026 será medida não pelo ‘hype’, mas pela capacidade de entregar resolução técnica, segurança jurídica e eficiência operacional em fluxos de trabalho complexos, onde o conhecimento de domínio é a maior barreira de entrada.

Com novas legislações globais, como dos EUA e União Europeia, exigindo transparência, rastreabilidade e mitigação de risco, qual deve ser o impacto no mercado de IA em 2026?
A regulação funcionará como um filtro de maturidade no mercado. O tempo das empresas que ‘brincavam’ de fazer IA sem governança acabou. Em 2026, legislações como o EU AI Act e normas locais impulsionarão empresas que já nascem com ‘security by design’. A transparência e a rastreabilidade deixam de ser opcionais para se tornarem vantagens competitivas. Isso mitigará o ‘Shadow AI’ corporativo e favorecerá organizações que garantem salvaguardas à sociedade. O impacto real será o aumento da confiança institucional: grandes corporações só contratarão fornecedores de IA que comprovem compliance, o que naturalmente vai tirar do mercado soluções superficiais e inseguras.

Com governo e entidades relevantes como BNDES prevendo investimentos robustos em Data Centers, quais serão os desdobramentos para o desenvolvimento de LLMs?
Estamos caminhando para uma era de soberania de dados. Os investimentos robustos do BNDES em Data Centers são fundamentais para que o Brasil deixe de ser apenas um consumidor de APIs estrangeiras e passe a ser um produtor de tecnologia. Até agora, dependíamos muito de plataformas fechadas. Com essa infraestrutura, veremos uma parceria mais estreita entre o governo e as empresas que realmente produzem IA – os ‘builders’. Isso vai permitir o desenvolvimento de modelos fundacionais brasileiros, treinados com nossa cultura e legislação, para garantir que a inteligência artificial nacional seja resiliente, independente geopoliticamente e especializada para a realidade do nosso ecossistema.

Como você avalia a relação entre startups de IA vertical e as grandes plataformas de nuvem em 2026?
Para mim é uma relação simbiótica e de construção conjunta. As startups verticalizadas de IA são, hoje, grandes geradoras de receita para as plataformas de nuvem, pois demandam um poder computacional massivo para treinar e rodar modelos proprietários. Por outro lado, para escalar soluções industriais, essas startups precisam de acesso prioritário à infraestrutura de ponta, como os clusters de GPUs H100 e Blackwell. Em 2026, não veremos apenas uma relação de cliente-fornecedor, mas parcerias estratégicas onde as grandes nuvens apoiam o crescimento dessas verticais, pois entendem que a aplicação prática da IA na ponta é o que sustentará o consumo de nuvem a longo prazo.

O avanço de GPUs como a geração Blackwell e os novos chips especializados deve continuar influenciando o ritmo de inovação em 2026? Como?
A evolução do hardware dita a viabilidade econômica do software. A chegada da arquitetura Blackwell e sucessoras é crucial porque altera drasticamente o ‘unit economics’ da IA. O aumento de performance se traduz diretamente em um melhor custo-benefício na geração de tokens. Quando o custo de inferência cai, viabilizamos aplicações em larga escala que antes eram financeiramente impossíveis. Para startups verticais, isso significa poder processar volumes massivos de dados jurídicos ou médicos com margens saudáveis. Hardware mais eficiente não traz apenas velocidade; ele democratiza a inteligência de alta complexidade, o que permite que que modelos mais robustos rodem com menor latência e custo.

Gostaria de acrescentar algo sobre perspectivas para o mercado de IA em 2026?
O próximo ano será de ‘grande reajuste’. Veremos uma separação clara entre quem produz tecnologia e quem apenas a envelopa. As empresas ‘consumidoras’ de IA, os chamados ‘wrappers’, sofrerão imensa pressão, pois modelos generalistas como os da OpenAI e Google absorverão suas funcionalidades básicas. O valor real migrará para as empresas produtoras de IAs verticais, como é o caso da Forlex no jurídico. Quem detém dados proprietários, modelos ajustados para baixa alucinação e fluxos de trabalho especializados estará protegido. O mercado deixará de premiar a generalidade para premiar a especificidade e a confiabilidade na resolução de problemas reais.

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