A nova fronteira da competitividade

Por muito tempo, a agenda socioambiental foi tratada como uma área acessória da estratégia empresarial – útil para mitigar riscos reputacionais, atender expectativas difusas de consumidores e cumprir formalidades regulatórias. Esse ciclo findou. Sustentabilidade deixou de ser custo ou orçamento institucional para se tornar variável econômica central, com impacto direto sobre produtividade, acesso a capital e inserção nos mercados globais.

A desconexão entre estratégia de negócios e agenda ESG, tolerada durante anos por investidores, hoje se converte em ameaça concreta à competitividade. Empresas que não conseguem demonstrar como integram sustentabilidade, tecnologia e geração de valor tendem a enfrentar restrições crescentes de financiamento, aumento do custo de capital, perda de mercados e erosão de valor econômico. Em um ambiente global cada vez mais regulado e avesso a riscos sistêmicos, esse desalinhamento cobra seu preço.

A aceleração regulatória reforça essa mudança estrutural. Mais de 50 países já exigem algum nível de disclosure de sustentabilidade, e o Brasil, ao implementar integralmente as normas IFRS S1 e S2, posiciona-se como referência regulatória internacional. Longe de ser apenas uma exigência burocrática, esse novo arcabouço redefine critérios de alocação de capital e gestão de risco. Não por acaso, sete dos dez principais riscos globais mapeados pelo Fórum Econômico Mundial são de natureza socioambiental, pressionando investidores a priorizar empresas com governança sólida e métricas consistentes.

Os impactos econômicos associados a essa transição são mensuráveis. A digitalização e a otimização operacional podem reduzir em até 4% as emissões globais até 2030. Estudo recente da consultoria BIP, em parceria com a MIT Technology Review Brasil, aponta com clareza como a força da nova economia tecnológica direcionada a soluções sustentáveis se tornou a nova fronteira da competitividade.

Deeptechs – empresas que operam com ciência aplicada e tecnologias avançadas – já movimentam US$ 60 bilhões por ano em soluções sustentáveis. Trata-se de um movimento que está redefinindo as bases da nova economia.

No agro, a agricultura de precisão, impulsionada por inteligência artificial, pode elevar a lucratividade em até 120%, com um mercado estimado em US$ 4,7 bilhões até 2028. Tecnologias ligadas a hidrogênio verde, biomateriais e captura e armazenamento de carbono (CCUS) avançam rapidamente, reposicionando cadeias produtivas inteiras.

O Brasil, nesse cenário, reúne vantagens competitivas relevantes. Destaca-se como um dos países com menor custo projetado de produção de hidrogênio verde no mundo, entre US$ 2 e US$ 4 por quilo, o que abre uma janela estratégica para o reposicionamento industrial e exportador. Essa oportunidade, contudo, só se materializa se houver coerência entre metas ambientais, estratégia de negócios e decisões de investimento.

Ressalte-se que a principal barreira das empresas brasileiras não é tecnológica, mas estratégica. A fragmentação entre compromissos de sustentabilidade e o core do negócio compromete o crescimento de longo prazo, limita a inovação e afasta investidores. Os riscos da não conformidade são claros: restrição de crédito, desvalorização de mercado, rupturas na cadeia de suprimentos e ameaça reputacional.

Migrar para modelos regenerativos torna-se, portanto, imperativo econômico. Esses modelos não apenas mitigam impactos, mas restauram ecossistemas, fortalecem relações produtivas e incorporam indicadores de “bem comum” aos KPIs financeiros. Setores como agro, energia, construção e indústria pesada tendem a ser profundamente redefinidos por essa lógica.

O estudo da consultoria BIP e do MIT identifica tendências com elevado potencial econômico. O hidrogênio verde pode responder por até 12% da matriz energética global até 2050; o mercado de biomateriais deve atingir US$ 29,7 bilhões até 2030; soluções baseadas na natureza demandarão cerca de US$ 350 bilhões anuais até 2050; e o uso de blockchain para rastreabilidade e finanças verdes deve impulsionar green bonds e instrumentos de crédito sustentável.

Neste cenário não é mais possível atuar de forma isolada. A nova economia depende de arranjos colaborativos que envolvem empresas âncora, deeptechs, universidades, fundos de impacto, governos e comunidades. Esses ecossistemas reduzem custos de adoção tecnológica, diluem riscos e aceleram a transformação de mercados inteiros.

As empresas que liderarem essa transição terão vantagens claras. As que insistirem em postergar essa agenda correm o risco de perder relevância e valor, em uma economia que já mudou de eixo. A inovação sustentável se tornou condição de sobrevivência.

Por Cristiane Moura, líder de inovação e sustentabilidade da consultoria BIP